Abandono em São Paulo
O momento triste do meu dia foi quando passei na frente de uma casa demolida, na rua Apinagés, onde provavelmente, em breve, nascerá um puta prédio, e vi, de guarda no terreno todo detonado, um filhote de doberman.
Deitado de costas para o portão (e o público que passava na calçada), ele pouco se importava com o movimento da rua, muito longe de qualquer chance de ter sido adestrado para “proteger” o dono e seus pertences, de atacar quando mandado. O cãozinho baby queria brincar.
Mas estava no meio do nada, e sozinho. Ali era um deserto de terra, pó, concreto demolido, janelas quebradas, ferro velho, nenhuma plantinha, nenhuma vida, além da dele próprio. Ao ver o cãozinho deitado sozinho, não aguentei. Mexi, aquele assobiozinho clássico. Ele nem se moveu, de primeira.
Assobiei de novo, me olhou com cara triste. Tive vontade de perguntar se ele queria água, comida, mas pelo astral daquela carinha desolada com que me olhou, era carência de afeto. Porque com fome e sede, um doberman, mesmo filhote, fica nervoso. Igual aos homens.