Naquela noite gelada, ela entrou toda cheirosa no bar Lilás para o lançamento do livro de uma amiga. Estava um arraso: blusa de paetês com decote V nas costas, calça de couro e botas. Ao fundo das conversas, vozes e risadas, John Pizzarelli, o monstro do jazz, brincava com sua guitarra. Caras bonitas, bocas coloridas, olhares curiosos. Drinques soltos, fotógrafos atentos, exemplares à venda. O romance Nu tinha 210 páginas de loucura e aventura. Narrava a história de amor entre uma bailarina e um ator. A autora, sua velha conhecida. Sim, a noite gelada esquentaria.
Entrou na fila de autógrafos e esperou. O cabelo fininho voava sem vento. Pilotando moto, parecia num comercial de xampu mas era o oposto da mulher frágil, clichê de comerciais. Ela era fútil sem “F”. Na sua vez, abraçou a autora sem mistérios. Ganhou mais que um autógrafo. Levou beliscão no bumbum e gostou. Sem graça, apostou no termômetro que subia. Sentiu calor, pediu vinho, uísque, por favor. A noite promete, ela quer ficar à sós com a autora, a Lua e umas caipirinhas. O desejo é de uma rede, estrelas e muitos beijos. Sonhar não custa nada.
Bebeu mais um pouco, quis mais uma, encheu a lata, danada. Entrou rindo no banheiro e não saiu ligeiro. Delineador negro. Alma
em paz. Uma da manhã, de novo o banheiro. Xixi aberto é sintoma de cerveja. Na porta da casinha do xixi, ela e autora se trombam. Amigas de outros carnavais, abaixaram a tampa de privada juntas, dando risada. Uma culta, inteligente, linda, meio autoritária mas também debochada, desbocada e despachada. A outra, totalmente desencanada. De porta fechada, a autora foi delicada ao abrir o zíper da parceira e beijar-lhe o pescoço. Sentiu ainda sua doçura nos biquinhos durinhos rapidinho. Beijou a mina de prazeres.
Em seguida, um encontro fulminante de olhos fez a mão peso-pena da autora deslizar sem velocidade sobre o tecido do vestido até chegar à flor. Arrepios, cochichos, e enfim, a orquídea lilás. Sua convidada ficou paralisada, com a florzinha roxa quase escancarada na privada, que coisa linda. As minas queriam tudo e boa-noite. Corações acelerados. Pensamentos voantes e a mão gelada por baixo da calcinha pequeninha. Dedinho que brinca. Lá dentro, quentinho. A mesma mão que acolhe, rega, move, colhe, autografa e fotografa. Mãozinhas de fada, as dela.
A leitora sonha tocar a amiga famosa com os lábios mas tem medo do pecado. Quer tudo escuro, um quarto só pra elas, mas não! Estão num bar lotado de maurícios & patrícias & escrotos & bacanas & bananas e a amiga só queria chupar-lhe a laranjinha. Ela queria dar o seu suco, ver a
outra espremer a fruta na sua boca, queria prazer. Dedos ligeiros no banheiro. Uma suada, outra corada, uma empenhada, outra risonha.
Tudo pelo prazer. As duas bocas pequenas e macias se engoliam devagar e iam até lá dentro falando uma só língua, a do amor. O beijo de alguns minutos fechou o serviço completo e discreto de afeto. Ela perdeu o controle, depois sentou para um xixi de verdade. A autora saiu satisfeita. Dar prazer dá prazer. O último selinho das duas foi rindo do vinho.
Fugiram, uma pra cada lado. No salão, sentaram em mesas diferentes. Mesas com velas acesas, toalhas floridas, gente sorrindo, tudo de lindo. O coração delas estalava como ovo frito. Frio no estômago, paquera, megera. Quem ia chegar de novo na outra? Hasteada a bandeira, oferecida a bandeja, quem quer o quê? Ela queria a amiga e boa-noite. Tinha bom gosto. Queria a amiga e um motel. Suíte mais cara, teto-solar, sauna, piscina quente, hidro, champanhe. A noite continuou farta de Pizzarelli. Caídas entre a piscina, elas sentiam o cheiro do cloro, sentiam calor, e tesão.
Se a balada dessa noite fosse gravada um comercial, terminaria com uma olhando para outra de um jeito piegas enquanto pétalas de rosas despencariam do céu. Na vida real, as duas entraram madrugada adentro querendo colher a flor lilás uma da outra.
O dia raiou e alguém se lembrou do filme de François Truffaut, O Homem Que Amava as Mulheres: “Não podemos fazer amor o dia inteiro, por isso inventaram o trabalho”. Acordou a amiga de cabelos molhados, com um sorriso nos lábios. O dia tinha sol.
Esse conto é de autoria de Lidice-Bá e foi publicado na revista Iguais, editora Onde, em julho de 2005